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A Saúde Mental é mais difícil na era da longevidade

  • Foto do escritor: Juliana E. Arango
    Juliana E. Arango
  • 22 de abr. de 2025
  • 8 min de leitura

Atualizado: 15 de fev.

A hipótese numérica dos parâmetros do que pode ter sido a qualidade de vida (QoL) antes do nascimento da ciência demográfica foi calculada considerando os valores em termos de proporção populacional por país. Medição da QoL na atualidade: https://www.numbeo.com/quality-of-life/rankings_by_country.jsp?title=2025-mid&displayColumn=0. . Para fins de visualização, nessa gráfica se usaram valores proporcionais entre idade Vs índice de QoL.                                                                                  Observe que o aumento da expectativa de vida não  aumentou os níveis de QoL dos seres humanos ao longo da história, que na verdade, caíram muito.
A hipótese numérica dos parâmetros do que pode ter sido a qualidade de vida (QoL) antes do nascimento da ciência demográfica foi calculada considerando os valores em termos de proporção populacional por país. Medição da QoL na atualidade: https://www.numbeo.com/quality-of-life/rankings_by_country.jsp?title=2025-mid&displayColumn=0. . Para fins de visualização, nessa gráfica se usaram valores proporcionais entre idade Vs índice de QoL. Observe que o aumento da expectativa de vida não aumentou os níveis de QoL dos seres humanos ao longo da história, que na verdade, caíram muito.

Conceitos científicos para medir a vida dos indivíduos na sociedade incluem termos como “expectativa de vida” e qualidade de vida (QoL). A expectativa de vida mede a média de anos que uma pessoa pode esperar viver em uma determinada população, a depender de vários fatores (sexo, gênero, ano de nascimento, região, estilo de vida, classe social, escolaridade, qualidade no acesso a serviços de saúde, à água limpa, etc.). Após mais de 40 mil anos de existência, a nossa espécie passou a esperar viver muito mais, em geral, mas isso veio com um preço alto: a queda gradual de bem-estar (por exemplo, devido à desigualdade), a fragilidade das conexões humanas e do sentido da vida, para além de fenômenos de exaustão no trabalho que são contraditórios se considerarmos a existência de muitas tecnologias facilitadoras.


Proponho que analisemos essas questões à luz da saúde mental (SM); que avaliemos a duração das diferentes fases da vida separadamente, e que reflitamos sobre os fatores que as separam. Assim poderemos compreender melhor o que a nossa autonomia, as nossas habilidades e atividades ao longo da vida, e os nossos papéis sociais têm a ver com a sustentabilidade da nossa existência, e o que essa sustentabilidade tem a ver com a Saúde Mental (SM).


As fases da vida têm características próprias, devido ao que tipicamente acontece nos diferentes momentos da nossa existência no nível físico, social, intelectual, também no nível ocupacional, e no nível do sentido da vida que, da perspectiva de muitas pessoas, se refere ao nível espiritual. Em geral, se fala em 4 fases: infância, adolescência, idade adulta e velhice, e, de forma geral, as pessoas imaginam que a primeira possa ser encerrada mais ou menos aos 11 anos, que a idade adulta comece em algum momento entre os 18 e os 24, e que a velhice inicie na casa dos 60. Existem embasamentos legais, médicos e até políticos para definir os limites entre uma idade e a seguinte, mas na prática a realidade vai depender do que os indivíduos estejam de fato conseguindo fazer e vivenciar em cada momento da vida.


Até há um século e meio, para a média da população mundial geral, ser “adulto/a” dependia de ter 3 capacidades: poder trabalhar com as mãos e o corpo, poder gerar filhos e demonstrar capacidades para agir diferenciadamente segundo o gênero (feminino, masculino, e às vezes outros gêneros incluídos na cosmovisão dos povos), seja dentro da família ou no contexto social imediato. Até hoje, esses três requisitos são a crença de muitos indivíduos no mundo sobre o que significa chegar à idade adulta, mas se você chegou até aqui, provavelmente não partilha dessa ideia geral. É claro que, no passado, cada contexto cultural determinou de quais formas específicas se trabalhava a terra, se cuidava dos filhos ou se acompanhavam rotinas e rituais segundo o gênero, mas a idade adulta estava definida por esses únicos requisitos.


As pessoas que atingissem a fase adulta nesses contextos passados já se deparavam com o entendimento do sentido e o objetivo das suas existências. Elas já saberiam para que e como iriam viver, até falecer, mais ou menos até antes dos 40 anos de idade. Sim! É isso mesmo: a grande maioria das pessoas no mundo, até menos de 200 anos atrás, entendia que provavelmente iria falecer antes de completar 40 anos. Veja mais detalhes no link: https://ourworldindata.org/grapher/life-expectancy.


Não é que não fosse possível que existissem octogenários/as, mas antes do desenvolvimento de tecnologias públicas (transportes, energia, eletricidade, água limpa, etc.) e de tratamentos médicos para mais pessoas (vacinas, antibióticos, anestesia, assepsia, anticoncepcionais, etc.), a longevidade era excepcional. Com essas tecnologias, a expectativa de vida se prolongou democraticamente a ponto de hoje acharmos surpreendente pensar nas estatísticas da história. É importante refletir sobre os efeitos que as mudanças inusitadas na expectativa de vida trouxeram para o funcionamento psicológico e social humano.


A SM humana na atualidade é muito menos atingível do que antes, e prova disso é que nem todo corpo adulto saudável e com inteligência normal é uma mente preparada para a autonomia. Os requisitos para a autonomia se transformam com as tecnologias. Essa lógica traz sentimentos de extravio, confusão, medo, solidão, incapacidade, cansaço e frustração, que impossibilitam o desenvolvimento de uma vida com objetivo, sossego e bem-estar.


A conquista da idade adulta: a cada vez mais incerta


Será que entre os 18 e 24 anos (idade na qual além de férteis já atingimos a altura definitiva dependendo do sexo, e em muitos casos já ganhamos estatuto de pessoa adulta perante a lei) a média dos indivíduos maiormente saudáveis é adulta? Será que a tendência é que nessas idades já se tenha o preparo para uma vida independente, tanto no material quanto no intelectual e no moral, e até com ocupações e talentos sustentáveis que deem segurança e possibilidades de escolher laços e cuidar do conjunto familiar, respondendo aos desafios corriqueiros da vida? Durante milênios, a resposta a essa pergunta foi positiva em qualquer canto do mundo.


Na nossa realidade atual, globalizada, cosmopolita, urbana, virtual, não é mais quem pode trabalhar com o corpo, se reproduzir e fazer coisas específicas para encaixar em antigos papéis sociais de gênero, quem tem acesso a viver uma vida adulta autônoma e plena.


Convido você a fazer uma pesquisa livre sobre o que a ciência diz a respeito do tempo de desenvolvimento que o cérebro da nossa espécie precisa para ficar suficientemente formado para grande parte dos desafios da vida autônoma atual. Dica: está ao redor dos 30 anos. Ora, você também pensou que as habilidades e recursos das pessoas ficam obsoletos no contexto atual e que perder a autonomia nos dias de hoje significa coisas diferentes do que no passado? As fases da vida não são mais o que foram.


A velhice não é mais aquela fase da vida na qual a pessoa vai passar a cuidar menos de outros em termos práticos para se dedicar a passar conhecimentos, informações cruciais e filosofias de vida necessariamente relevantes aos entes próximos. Também não é mais requisito para participar de forma privilegiada na tomada de decisões para o grupo social. Tudo isso tem um impacto na saúde mental e física dos seres humanos contemporâneos.


A indefinição do nosso lugar no mundo nos causa muito medo


Há algumas décadas, passamos a não poder mais acompanhar, com o simples uso do senso comum, as consequências das mudanças para cada fase da própria vida. De forma geral, para sermos adultos, começou a ser necessário mais tempo, mais estudos, socializar com mais pessoas num contexto social cada vez mais amplo, inclusive virtual; começou a ser necessário ter mais preparo e esperar ativamente muito mais: fazer muitas mais coisas sem que pareça que haverá frutos. Tiveram que surgir cada vez mais leis com intuitos igualmente complexos, transnacionais, e muito além do que a religião dos nossos ancestrais ensinou ao longo dos milênios sobre o que fazer e o que não. A sensação constante de insegurança, insuficiência e frustração é a consequência lógica.


Inclusive, hoje em dia existe um contexto institucional e legal que faz com que, para acompanhar a complexidade da autonomia adulta no mundo de hoje, precisemos deixar muitas decisões na mão de pessoas com autoridade para resolver os nossos problemas. Um exemplo disso é que precisamos de um médico para conhecer uma cura e até para ter acesso a ela. Os profissionais da SM até nos dão respostas de manual sobre como sofremos: nem sempre respostas às nossas questões individuais. Ao mesmo tempo, vivemos numa era na qual é muito perigoso funcionar em isolamento e sem uma compreensão do que sentimos e precisamos, dada a complexidade dos requisitos para a autonomia.


É comum que sintamos a necessidade de questionar as respostas que as nossas tradições deram aos problemas cotidianos de tempos passados, e até devido a isso tudo, desenvolver um tipo de maturidade emocional que as gerações anteriores nunca precisaram conquistar. Nos tempos de hoje, sempre há algo novo que “poderia” ser feito, estudado, vivenciado, consumido, etc. Agora existem muitas opções, mas também muitas necessidades que só fazem sentido à luz das circunstâncias individuais.


Você pode imaginar o que isso tudo causa na psique ou no psicológico de quem envelhece, mas também no psicológico de quem tem idade legalmente adulta, mas descobre que a sua autonomia está sob constante ameaça e à mercê do que possa fazer individualmente para se adaptar? Não podemos mais desfrutar, como os nossos ancestrais milenares, da facilidade intuitiva de encaixar com a expectativa dos nossos pais e avós, já que ela não conecta mais com as lógicas do nosso tempo. Ora, o sentido e o objetivo da existência humana dependem do entendimento de como viver a própria vida, segundo cada fase, e até quando, mais ou menos.


Saúde Mental (SM): o que é no final?


SM não significa que a pessoa tem acesso a médicos psiquiatras, a medicações, ou a psicoterapias acessíveis, mesmo que isso possa estar relacionado. Também não é a ausência de loucura ou transtorno mental. Aliás, SM significa a presença de coisas funcionais, digamos assim; por exemplo, a existência da capacidade de fazer tarefas necessárias no cotidiano ou de se relacionar com outras pessoas sem por isso sofrer. Ou seja, “funcionar” ou “se relacionar” não ajudam a ter SM quando essas coisas se tornam exigências aversivas, dolorosas ou desagradáveis. Agora lembre-se da gráfica no início: A qualidade de vida (QoL) está relacionada com a SM porque a possibilita, já que a QoL se refere a quão fácil ou difícil é viver uma vida cotidiana minimamente digna em um determinado contexto social, histórico e geográfico.


Infelizmente, na ausência de um olhar crítico, “funcionar” e “se relacionar” podem virar mandatos produtores de doença mental e muito mal-estar; deveres morais pesados e dolorosos. Pelo que se sabe sobre SM, quando não há condições dignas, espaço para a individualidade, o prazer, a troca ou reciprocidade, ou quando falta um desejo ativo de se sentir em paz, aparecem relações e funções mediadas pela violência cotidiana e a imposição. Assim, a SM é inviável. Neste ponto, é interessante refletir que não é porque alguém tem um corpo funcional, saudável e longevo, que essa pessoa será feliz e terá SM.


E o caso por caso?


Devido a múltiplas razões individuais, nem sempre há condições para que as pessoas se adaptem a um papel social esperado ou culturalmente “apropriado” que pudesse “garantir” um enquadramento ideal em categorias de bem-estar, funcionamento e relações. As normas não garantem SM. É necessário que um sujeito possa transformar sua relação com as expectativas que a cultura, a tecnologia, a autoridade, os expertos, as crenças e outras pessoas têm sobre a sua vida.


SM é o agrado de se ocupar em ser e mudar ao longo da existência individual. É participar na cultura e no grupo social de alguma forma que faça sentido para o sujeito, que não cause sofrimento, e que justifique esforços transitórios e algumas dificuldades calculadas. O bem-estar físico vai ajudar, é claro, mas independentemente da quantidade de anos que se chegue a viver ou de algumas condições hereditárias, por exemplo, a SM tem a ver com se conhecer e discernir opções livres para viver.


Você poderia pensar em quais sentimentos existem em você por conta da complexidade da vida cultural, social e tecnológica atual, na qual a nossa espécie só muito recentemente começou a viver, e ainda vai precisar de milênios para se adaptar? Estas reflexões já orientaram o meu trabalho no consultório Psi: para a construção de entendimentos e soluções individuais do caso por caso. Convido você a construir uma longevidade digna ao refletir sobre suas implicações para a produção de SM.


 
 
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