Você não precisa “controlar” o que sente. Até porque não pode.
- Juliana E. Arango
- 23 de fev.
- 8 min de leitura
Atualizado: 12 de mar.
Seguramente você já ouviu falar sobre a suposta importância ou sobre a possibilidade de “gerenciar emoções”, e até sobre a “inteligência emocional”, e talvez você tenha pensado que a ideia por trás disso tudo deva ser positiva ou útil para alguém. Mas como assim “útil”? No trabalho sobre a saúde mental humana, não existe o óbvio. Vamos primeiro separar algumas coisas: tem, por um lado, a pessoa que sente as diversas emoções da natureza, como medo, raiva, tristeza, felicidade, vergonha, culpa, inveja, pena, nojo, amor ou ternura; por outro lado, tem todas as demais pessoas ao redor de quem sente. Ora, como assim, “natureza”?
Do ponto de vista da biologia, não é possível escapar do funcionamento natural do corpo, e as emoções são um funcionamento fisiológico e comunicativo das diversas espécies animais, mesmo que de formas diferentes, a depender da espécie. Certamente, as emoções de um gato ou de um macaco são muito mais complexas se as compararmos às de uma borboleta ou de uma lagartixa, e cada caso é particular. Certamente, cada espécie animal tem sua própria fisiologia, e nem todas vivem em grupo nem precisam interagir ou se comunicar com outros indivíduos para sobreviver.
Se você está pronta/o para lembrar que somos uma espécie social, com uma fisiologia e um lugar na cadeia alimentar, você vai compreender que não dá para controlar o fluxo sanguíneo perto de um aneurisma, assim como não dá para não sentir raiva das 7 às 17 horas. Com o termo “fisiologia”, precisamos entender que algo está cumprindo uma função de uma forma específica. As emoções são um fenômeno fisiológico natural.
Por um lado, há algumas emoções que geram a tendência a nos aproximarmos de outras pessoas, lugares ou coisas mediante atitudes, ações ou condutas. Por outro lado, há outras que geram a tendência oposta, afastando a pessoa do objeto da emoção. Em psicologês existe o conceito de estímulo, que por vezes é “apetitivo” e por vezes é “aversivo”; a lógica é a mesma. Cabe comentar que a palavra “emoção” já traz a ideia de “moção”, que se refere a um propósito ou finalidade, vindo do latim movere, que significa movimento.
Mas independentemente da direção do movimento emocional, as emoções podem ser positivas (ou agradáveis) ou negativas (desagradáveis). Num caso, um ser humano ou um animal irá se mover numa direção de aproximação ou repetição se a consequência for algo agradável: com a alegria, o amor, o humor, a calma, o alívio, etc. Ou ele irá se mover para se afastar ou para eliminar algo desagradável: é o caso do medo, do nojo, da vergonha, da culpa, etc. No caso da tristeza, do esgotamento emocional geral ou da perplexidade, o movimento vai tender a ser de quietude ou, inclusive, de retirada, como consequência de sensações maiormente desagradáveis. Já no caso da raiva, muitas vezes o “desejo” vai ser de um movimento de aproximação, no contexto de um estado emocional muito “negativo”.

Então, as emoções são funções e movimentos naturais do reino animal, que, no caso das pessoas, existem para permitir-lhes lidar com o ambiente de socialização e de interação da cultura humana. As nossas emoções existem para indicar à nossa mente, via alteração do organismo e de sensações físicas, como está a relação com o ambiente. Vamos combinar que o ambiente natural e cultural onde o ser humano se insere, por vezes, é ameaçador.
As emoções servem para priorizar e tomar ação rapidamente.
Todas as emoções ativam mecanismos anatômicos e fisiológicos complexos, e todas elas obrigam o corpo a reagir de alguma forma particular. É a mesma coisa com qualquer fisiologia corporal. Pense que seria impossível convencer o seu corpo, só com o pensamento, de que a sua perna não quebrou, que está sem dor nem inflamação, que não haverá consequências, e que você pode, sim, sair diretamente para o seu trabalho, como se nada tivesse acontecido.
No caso das emoções, embora não haja muita energia corporal disponível, ou embora existam múltiplos assuntos que precisam de atenção, quando alguém sente uma delas, não pode ignorá-la e não pode continuar a vida como se nada tivesse mudado. Se pensarmos que cada emoção tem uma fisiologia distinta porque tem uma função diferenciada, podemos pensar num exemplo: a raiva, que é uma emoção muito difícil de ignorar, faz com que a pessoa sinta a necessidade de destruir o outro, ou seja, se aproximar dele para afastá-lo. Não importa que se tomem outros caminhos para evitar uma catástrofe; o que importa é que a raiva moviliza estratégias para evitar o mal que o outro pretende ou parece que pretende fazer, ou que no futuro tenha as mesmas chances. Vamos combinar que a raiva se relaciona com interpretações de más intenções externas, riscos presentes e futuros, e prevenção de novos desperdícios de energia.
É parecido com a alegria, que gera um movimento de aproximação e repetição, mas dessa vez por causa de sensações positivas. O que você poderia imaginar sobre a função que cumpre a tristeza, então, onde parece que o movimento cai? Para que alguém iria querer ficar trancado/a em casa, sem fazer muita coisa, nem socializar, pensando num único conjunto de assuntos, e ainda ser julgado/a pela sociedade valorizadora do alto desempenho, da produtividade e do alto consumo? Qual das seguintes respostas você acha mais plausível?
a. A tristeza fez o corpo adoecer e precisa que você seja maltratado/a ou destruído/a por outros mais fortes.
b. A tristeza “quer” que você não gaste a energia em coisas que não sejam urgentes. Algo urgente no que ela “quer” que você pense é entender um evento recente que a causou, como a incerteza e o vazio após uma perda ou o fechamento de um ciclo.
c. A tristeza apareceu porque o seu corpo precisa ficar quieto e não atrapalhar ninguém, nem sinalizar a sua presença no ambiente perigoso.
As emoções são “análises” que a nossa fisiologia faz para reavaliar como a energia corporal irá ser usada e no que, por ser importante para a autopreservação. Você deve ter pensado que a opção a seja ilógica ou contraditória, que a c diga mais respeito ao medo, e que a b possa talvez ser uma análise que faz sentido. O corpo não é um recipiente infinito de força ou energia corporal e mental, e ele não disponibiliza essas capacidades para sempre, nem principalmente para as nossas preferências conscientes ou ideais. Até podemos gastar um monte de energia em coisas que achamos “boas” por serem divertidas ou por parecerem moralmente apropriadas, mas se não for isso que de verdade nos protege no sentido biológico, o corpo irá economizar os recursos.
Por meio dos sentidos e das emoções, entendemos quais perigos e quais possibilidades existem para sobreviver, e ainda comunicamos aos outros o que sabemos sobre isso: ora mediante gestos, ora mediante posturas corporais, ora mediante sons. No contexto social, o objetivo biológico da comunicação é que o grupo sobreviva e se apoie. No caso humano, temos a linguagem falada que, em tese, tem o potencial de ser uma ferramenta de sobrevivência grupal.
Não é possível dissimular o que o corpo nos diz que é para sentir
É importante analisar a função autoprotetora de cada emoção de forma independente, mas também é importante entender por que as emoções podem ser “lidas”. Cada emoção se vale de partes do corpo, órgãos, músculos e funções que, no seu conjunto, preparam situações específicas visíveis por outros e com significado social: ficar sem reação, para não ter ânimos, sorrir, apertar os punhos, tomar uma postura desanimada sem perceber, etc.
Voltando ao medo, por exemplo, acaba sendo interessante para os meus vizinhos que eles possam ficar sabendo que estou apavorada com algo que acabou de acontecer no meu quintal. Eles vão saber pela minha expressão facial, pela minha voz e pela minha postura que algo aconteceu. Por morarem do meu lado, aquilo pode acontecer com eles também, e eles precisam saber a tempo para tomar providências oportunamente. Em benefício meu, inclusive, eles vão ter algum nível de interesse em vir me socorrer.
Você pode imaginar o que informa aos outros o fato de alguém ter uma expressão, uma gestualidade, um tom de voz e uma postura de ternura ou amor? Será que quem vê vai ficar tenso e se preparar para tomar alguma ação com muita força nos braços e uma respiração muito rápida, ou será que o corpo da pessoa vai ativar uma fisiologia da calma que a deixe à vontade, disposta a sorrir, socializar e colaborar também? Lembrando que a socialização e a comunicação estão postas na natureza como estratégias de sobrevivência do coletivo.
Salvo na dramaturgia ou na intenção ativa de enganar, o que ainda tem um propósito social, todo mundo sabe quando alguém está bravo, cansado, com nojo ou quando alguém está alegre ou triste. Certamente, nem todo mundo é ótimo ator ou atriz, nem sempre é ao outro que pretendemos enganar. Porém, no nível da questão evolutiva, prestando atenção aos sinais, quase qualquer pessoa vai perceber, em alguma medida, que alguém está com um problema ou que alguém identificou uma boa oportunidade de sobrevivência e bem-estar: ao observar as suas emoções.
Sabemos então que a informação é importante para tomar decisões e que as emoções são uma linguagem para decodificar informações importantes. Mas para que alguém precisa saber que você se sente mal ou sente insatisfação? Teria quais informações nesse conhecimento e para utilidade de quem? Aliás, por que será que essa pergunta tende a gerar sentimentos de receio, vergonha e desconfiança? Será que é por isso que você desistiu de falar com um/a profissional ou com alguém do seu círculo próximo/rede de apoio?
A sociabilidade humana na cultura e os riscos de vida que os indivíduos correm nas sociedades humanas hoje são diferentes dos que os nossos ancestrais pré-históricos viveram. Podemos entender que a vida de hoje é muito mais ocupada, cheia de barulho, pessoas, diferenças, itens, obrigações, leis, boletos, desigualdades, etc., e que, de fato, há menos disposição, tempo e recursos para as pessoas acolherem outras com qualidade. Mesmo assim, é perigoso perder vitalidade ou condições para viver quando falamos e tentamos demonstrar e acreditar em algo diferente do que as emoções nos indicam.
Num exemplo prático sobre isso, em conexão com o medo, podemos até achar que é muito bom mesmo conseguir trabalhar como loucos/as, sem limite de horário, entregar muito rápido o que nos é solicitado, de forma que possamos “crescer” numa empresa, ou pelo menos não perder o nosso emprego. O corpo não avalia a realidade desses desgastes como algo conveniente. Ele irá encerrar o fluxo de energia disponível para isso a partir da hora em que o nível de estresse e mal-estar físico e emocional não consiga desaparecer com a rotina básica de descanso, e a partir do momento em que a sintomatologia física e mental aparece. Pouco “importa” ao nosso corpo que depois sintamos culpa ou desamparo por não estar produzindo na lógica da cultura da alta produtividade.
Não é sustentável sempre parecermos autossuficientes e capazes de tudo sós. Pode ser que o dito “controle emocional” na verdade seja muito nocivo para quem o pratica e completamente desvantajoso. Aliás, esse tipo de “controle”, se é que ele é “vantajoso”, ele só o seria para as pessoas que ficam ao redor da pessoa emocionalmente afetada, já que ela, em bom português brasileiro, “não dá problema”. A pessoa que segura sempre o que sente não atrapalha ninguém, mas desse jeito ninguém fica sabendo que seria útil fazer ajustes e esforços para proteger a vida em comum, começando por quem se encontra afetado/a nesse momento.
Como se faz então?
Em contextos de muita pressão e de apoio social insuficiente, é possível entender por que é indesejável sentir coisas que nos deixam vulneráveis ou prestes a agir contrariando as nossas estratégias de sobrevivência auto-hostis: pertencendo a uma sociedade que pode ser muito hostil e demandante. Mas com frequência, não precisamos só daquilo que consta no plano da vida prática, como descanso, dinheiro, tempo, medicação etc. Com frequência, no plano das necessidades individuais, as emoções nos informam internamente também a respeito do que nos faz mal ou a respeito da nossa perigosa perda de autonomia e liberdade. Às vezes, é a gente que tem que olhar para a nossa própria expressividade, postura, sintomas, ritmos, vitalidade, olhar, reações, gestos, tom de voz, entorno, sonhos ou a sua falta…
Convido você a falar comigo sobre o que sente... e sobre o que esse texto movimentou em você.


