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Ansiedade: risco para todo ser humano

  • Foto do escritor: Juliana E. Arango
    Juliana E. Arango
  • 18 de mar.
  • 7 min de leitura

Atualizado: 20 de mar.

1.      O que é a ansiedade, na verdade?


A ansiedade não sempre é um problema clínico, é uma emoção complexa: isso quer dizer que ela se deriva de emoções básicas, como o medo (principalmente). Por uma parte, tem uma origem em fatores históricos de cada pessoa, e por outra parte, tem uma fisiologia e uma sintomatologia no corpo, que são típicas. A ansiedade é natural, ou seja, é esperável e é possível de ver em outros animais; não só nos seres humanos. Adicionalmente, ela é uma espécie de diálogo entre o passado e o futuro iminente: é um mecanismo que a natureza ativa para preparar os indivíduos para agir num contexto mais ou menos novo, ou que só pode ser encarado com ferramentas existentes (conhecimentos, habilidades, informações, aptidões, etc.).


Sentimos ansiedade porque sabemos que uma situação desafiadora e geradora de mal-estar emocional normal está por vir. Mas isso por si só, não quer dizer que haja algo de errado ou de "anormal": sentimos ansiedade com situações corriqueiras, e ainda bem; isso nos impulsiona (física e cognitivamente) a investir energias em algo importante... uma prova, uma viagem com horários estritos, uma competição esportiva, etc. O mal-estar simplesmente se deve a que a ansiedade é parecida com o medo na medida em que ela ativa a mesma fisiologia da triade de possibilidades (lutar, fugir ou congelar) própria do medo. Vamos combinar que não é agradável sentir medo. O coração bate rápido, ficamos ofegantes, ficamos com frio mas suamos, não podemos pensar com clareza em qualquer coisa, nos sentimos com presa para encerrar a situação de alguma forma...


O medo é bem mais definido no seu objeto, comparativamente. Ele nos acomete diante de um risco muito concreto: cair da moto, sofrer assalto na rua, cachorro perigoso se aproximando, gravidez indesejada, etc. De qualquer forma, não é sempre simples definir concretamente que existe um risco, se o que se sente é mais medo ou ansiedade, se é um desafio complejo ou se é um perigo de vida específico: lembrando que em saúde mental nada é obvio. Nem sempre a observação natural dos fatos da nossa vida nos explicam por que sentimos agitação, mal-estar emocional e pensamentos fixos e imediatistas. Às vezes, a historização sobre os eventos que nos atingiram ao longo da vida é chave para objetivar a fonte do temor individual na ansiedade. A psicologia e a psicanálise trabalham com isso.


2.      Ansiedade como doença física e mental


A ansiedade não sempre é doença, como vimos antes. Quando ela é clínica ou "problemática", a ansiedade não é só de um momento específico, e ela não passa assim que um risco concreto ou mais ou menos nomeável acaba, nem com o final de situações bem previstas por serem parecidas com a experiência passada, nem quando um desafio foi superado. Ela tem um componente externo na medida na qual o médio social, cultural, material lá fora do nosso corpo, supera os nossos recursos de lidar com desafios cotidianos.


“Doença” podemos definir como o oposto de “saúde”, que segundo a Organização Mundial da Saúde é um estado de bem-estar físico, mental e social. Mas, o que poderíamos entender como bem-estar em primeiro lugar, e que se perde quando há doença? Sugiro que possa ser, por exemplo, não ter questões, preocupações, vazios ou problemas para resolver, que possam consumir a nossa energia permanente ou totalmente: até o colapso orgânico. Mas, será que ignorando que existem questões, preocupações, vazios ou problemas para resolver, já podemos fazer com que um estado de bem-estar se instale nas nossas vidas?

33% no mundo tem ansiedade
Dado sobre ansiedade clínica. Relatório mundial de saúde mental, OMS, 2025

Não é porque achamos que somos capazes de relevar algumas dificuldades da vida que iremos ser capazes de desconsiderar uma pressão alta constante, uma vertigem persistente que nos faz cair, uma enxaqueca semanal que a cada vez nos incapacita mais para voltar às nossas funções, e muito menos desconsiderar o dano orgânico gerado por essa fisiologia constante de um tipo de medo que nunca pára. A ansiedade, que precede e extende o início e a duração de ora um medo real, ora uma preocupação real, ora uma tristeza real, ora uma raiva real, ora um cansaço real, etc., até porque a vida contemporânea é exigente, violenta e muito ocupada, passa a danificar o nosso corpo quando ativa a fisiologia do medo/a ansiedade por muito tempo.

A amígdala do cérebro (não as que ficam na garganta) "avalia" que há perigo lá fora e aciona o sistema nervoso simpático e o eixo neurológico hipotálamo-hipófise-adrenal, liberando sustâncias como adrenalina e noradrenalina e, através delas, cortisol, que é o hormônio do estresse. O cortisol aumenta a frequência cardíaca, a pressão arterial e o ritmo da respiração, redirecionando o fluxo sanguíneo principalmente para músculos, al mesmo tempo que inibindo funções não essenciais (como digestão, reprodução, pensamento crítico, etc.). Isso faz sentido no mundo da natureza, já que quando um mamífero ou um pássaro precisa fugir, se defender/atacar, ou segurar o movimento para não ser visto, ele precisa de mais força do que o comum.


Precisamos de boa presença de sangue com boa carga de oxigênio e açúcar nos nossos músculos para isso: correr, lutar ou impedir o movimento. O corpo cuida disso de forma automática, e embora se sinta ruim, a sensação sempre passa rápido: claro, se não surgem complicações inesperadas... quem sabe. O que sabemos é que o corpo não vai gastar recursos nessas horas em te permitir fazer filosofia, ter tesão sexual, comer e perceber os sabores em paz e com cuidado, nem muitas outras coisas.


Paralelamente, regiões como o hipocampo e o córtex pré-frontal no cérebro modulam a resposta com base em memórias de experiências da vida, de forma a "facilitar" a leitura de um contexto que talvez (quem dera) se parece com algo que já se viveu. Se ativa então um estado de vigilância que serve só para aquelas três coisas: lutar, fugir ou congelar. Quando esse estado de coisas se prolonga muitos dias, semanas, meses ou anos, os efeitos cumulativos sobre sono, atenção, sistema imunológico e metabolismo começam a aparecer, um a um: insônia, perda de memória, dificuldade para focar, procrastinação, problemas de fala até, visão embasada, diabete, hipertensão, endometriose, gordura localizada em lugares específicos do corpo, indigestão, gastrite, alergias, infeccões recorrentes, gripes fortes, e muitos etcéteras.


É uma questão neurológica então, que não é porque queremos evitar trazer a tona alguma parte da nossa história que ela irá embora das nossas vidas. Não adianta fazer de conta que não temos uma história própria que deixou marcas e “caminhos” igualmente marcados no sistema nervoso, que continuaremos a percorrer sem notar. Em outras palavras, a ansiedade é o medo a um medo ou a uma emoção ou um estado de várias emoções maiormente desagradáveis que já se vivenciaram. É uma resposta ao que se sentiu e não ao que se viveu diretamente, nem ao que se sabe que está por vir ou se repetir: até porque, em geral, precisamos de ajuda profisisonal para nomeá-lo.


3.      Limitações comuns no tratamento


Não adianta muito ficar fazendo exercícios de respiração ou musculares, ou tomar para sempre remédios que nos ajudem a dormir, por exemplo, para desfazer uma disposição fisiológica ansiosa que pode ser crônica... Existem condições físicas e mentais que viram crônicas (igual vimos na lista de doenças crônicas e dificuldades cognitivas e de saúde), por conta da persistência e durabilidade, assim como devido aos danos orgânicos que elas geram. Em menos de um ano, já se pode sofrer danos, e cabe a cada corpo se eles serão reversíveis ou não. Certamente, cada corpo terá condições desiguais para lidar com o peso de uma afetação, ou pelo que é gerado pela ansiedade como disposição fisiológica crônica, e já como funcionamento problemático e mórbido geral.


Quando o nosso corpo já adoeceu junto, e a depender de qual doença, as melhores e mais sustentáveis intervençōes não podem ser só psicoterapêuticas ou só da psicanálise. Muitas vezes, nem é só a medicina que pode auxiliar com doenças e sintomas problemáticos específicos: é a qualidade de vida, o acesso, a possibilidade de fato de descansar, a presença de pessoas capazes de interagir bem e em paz conosco... são também os conhecimentos que podemos ganhar.



4.      Ansiedade como impedimento para funcionar.


Especialmente nos tempos de hoje, onde tudo mundo está ocupado, não há tempo suficiente para processar emoções e vivências pessoais, e surgem estados anímicos e físicos que não permitem às pessoas funcionarem bem em aquilo que elas desejam. Nesse mesmo contexto, surge muito frequentemente o "não entender" o que está acontecendo. No contexto do trabalho, da família, e da sociabilidade costuma surgir a sensação de que “sentir” alguma coisa é inconveniente por se contrapor ao que outras pessoas exigem, precisam, ou desejam. Quase qualquer coisa vira problema de se sentir, desde felicidade até vazio e dor: não só medo.


A capacidade de ignorar, relevar e fazer de conta que não temos uma interioridade que sente e se comove com a vida, acaba sendo valorizada como algo “bom” para se ter ou para ser, num mundo onde os próprios desejos têm importância menor. Mas por quanto tempo você acha que essa “capacidade” tão “útil” irá ser sustentável para um ser humano como você?... ou como qualquer outro? Ora, não são só as pessoas que têm um emprego, empreendimentos, ou aquelas que fazem faculdade que ficam muito atarefadas e cheias de problemas para lidar, e que possam legitimar uma ansiedade clínica. Não é só a produtividade material e intelectual que ocupa às pessoas. Como eu sugerí, também nas relações interpessoais, os seres humanos podemos ficar bastante “atarefados”; especialmente, “atarefadas”: mas esse é um tema para uma próxima reflexão.


Os profissionais da saúde teremos mais trabalho na medida que você não tenha tempo e condições para parar e pensar sobre o seu sofrimento ansioso. Uma pessoa com uma ansiedade crônica irá precisar, sim, de ir no médico, irá ficar muito triste, e provavelmente vai chegar uma hora com episódios de angústia incapacitantes que demonstrem que ela não pode gerenciar isso sozinha. A maior gravidade só pode aprofundar as consequências da ansiedade, cuja origem precisa ser identificada, historizada e lidada de alguma forma. Peça ajuda profissional.


 
 
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