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Perdas e Luto: Por que fazer psicanálise com isso

  • Foto do escritor: Juliana E. Arango
    Juliana E. Arango
  • 12 de mar.
  • 6 min de leitura

Atualizado: 16 de mar.

Na experiência clínica psicanalítica, surgem muitos relatos de sofrimento subjetivo que têm conexão com a perda de um “objeto” importante/amado. Entendemos por objeto uma pessoa, um lugar, uma parte do corpo, um emprego, um nível de vida, o acesso a uma atividade prazerosa e significativa, um pertencimento nacional, uma ideia geral de quem se era, um ideal que "permitia" que a vida funcionasse, um papel para ocupar no mundo, etc. Nesse mesmo sentido, por vezes, não são apenas outras pessoas que “morrem” ou param de existir.


É interessante parar para pensar no objeto da nossa perda, por vezes até difuso e difícil de nomear ou identificar. Até porque a “existência” de algo ou de alguém importante nas nossas vidas está atrelada ao funcionamento do nosso cotidiano no ambiente material imediato. Também porque, por vezes, as pessoas ou as coisas importantes nas nossas vidas não param de existir; às vezes só param de existir nas nossas vidas, e não é por isso que a intensidade de uma perda é menor do que a da morte física e literal de um ente querido. Às vezes, se tem um vínculo enfraquecido ou distante o suficiente para não ocupar as nossas preocupações cotidianas, mas de repente a morte marca um final sobre o qual não tínhamos refletido.


Quando algo ou alguém para de se fazer presente na nossa existência cotidiana, seja por conta da morte ou não, é fácil imaginar que as nossas atividades, rotinas, paisagens, objetos, relações e problemas também mudam. Quando algo muda radicalmente, pode acontecer que não tenhamos mais acesso ao modo como desenvolvíamos a nossa vida, de modo geral. De repente, não temos mais com quem resolver os nossos problemas e, por isso, novos desafios ou limitações surgem; pode ser que fiquemos sem sustento, sem amor, sem teto. Cada caso é particular, mas existe uma camada fortemente concreta e material nas grandes mudanças.


Acontece que paramos de ser também aquela pessoa que tinha uma forma muito definida de lidar com a vida, do jeito como ela era vivida. Às vezes, algum tempo é necessário para perceber que a continuidade da nossa identidade é abalada quando perdemos algo ou alguém. Paramos de ser cônjuge, filha, filho, pessoa com emprego estável que pode sustentar o lar, ou aquele atleta sucedido ou pessoa jovem e saudável com um corpo funcional, etc. Não só perdemos o objeto ou a relação: passamos a não saber quem somos e como viver.



Luto como esforço e trabalho de readaptação


Talvez você ache estranho pensar no luto como um conceito que diz respeito a alguma atividade. Talvez você já tenha pensado que os efeitos de uma perda de algo ou alguém importante sejam só consequências “passivas” da vida. Mas o que acontece com alguém cuja vida muda muito, por exemplo, por conta de uma perda, se a pessoa insiste em ficar nos mesmos lugares, com as mesmas pessoas, tentando fazer as mesmas coisas e manter as mesmas rotinas? Será que a continuidade é possível nas novas condições?


O luto é um esforço de mudança, e é precisamente por isso que pode ser tão difícil superar uma perda; é ainda mais difícil quando as novidades saem caras ou exigem habilidades e outros recursos que não estão ao nosso alcance. Isso quer dizer que o luto é difícil e é desagradável por razões que vão além dos sentimentos de tristeza e saudade que a perda cria, que, na verdade, são normais, esperáveis e até “bons”, no sentido do processo de mudança que precisa ser iniciado no seu tempo: para poder continuar do lado dos vivos e dos presentes. Mas poderíamos dizer também que "agir" fica em geral difícil quando se sente tristeza; de qualquer forma, talvez seja porque a dita ação nada tem a ver com resolver algo agora ou simplesmente se obrigar a ficar ativo/a fazendo alguma coisa.


Ora, dizer que possa ser "bom" sentir saudade e tristeza não quer dizer que esses afetos não sejam ruins também. É importante acolher o mal-estar e, certamente, é muito importante que os nossos sentimentos sejam validados por outras pessoas, primeiramente como existentes e também como realidades importantes a serem levadas em conta. Mas a tristeza e a saudade são só o início do percurso necessário para atingir uma readaptação que seja saudável e que nos permita funcionar na vida com algum nível de prazer novo. O luto é um trabalho; um processo que leva tempo e segue umas certas "fases". Também não pode ser acelerado.


Fases do luto


Depois de anos de pesquisa com pacientes terminais e seus familiares, a Elisabeth Kübler-Ross, referência mundial nos estudos sobre o luto na morte, escreveu em 1969 uma explicação detalhada sobre o processo anterior ao final da vida de uma pessoa: tanto para quem parte quanto para quem fica. O processo inclui fases que acontecem mais ou menos separadamente e, por vezes, de forma simultânea. Ela explica muito bem que a primeira fase é o sentimento de negação da nova realidade, que inclue atitudes comuns de isolamento e rejeição. É importante comentar que, quando a perda é especialmente difícil, pode acontecer que a negação leve a não lembrar e não acreditar em algumas coisas: inclusive não entendendo a realidade atual da própria existência. Na clínica, chamamos isso de estados dissociativos, aliás.


A segunda fase é a raiva ou a revolta, que tem um perfil de rejeição mais ativo e visível, depois que já se entendeu que a realidade impôs algo muito ruim para a própria vida e não para a vida de outra pessoa qualquer. Não é difícil imaginar que para esse momento possam emergir sentimentos de injustiça, por exemplo. A terceira fase é a barganha, que é uma esperança que ativa ações de compensação, atitudes e atos repetitivos quase rituais, que atualizem algo do momento, o objeto, a identidade, o estatus ou a pessoa perdida. Neste ponto, podem emergir esperanças de retribuição emocional, lembranças vívidas certamente, esperanças de alguns retornos, talvez, e até crenças em milagres.


Depois há uma fase de depressão, que está relacionada com um cansaço e uma debilitação do corpo e das emoções, e que inclui sentimentos de solidão, saudade e ansiedade, sendo essa a fase na qual as pessoas precisam de mais atenção e escuta, de forma que possam entender e validar o que estão sentindo, por vezes muito complexo e difícil de aceitar, além da morte ou a mudança em si. Inclusive, para lidar humanizadamente com sentimentos complexos de culpa e arrependimento, que podem surgir. Por último, vem a fase da aceitação, na qual começa a surgir um sentimento de paz com o final, a perda ou a mudança, e expectativas ou desejos pelo passado cada vez mais fracos. Neste ponto, a vida pode começar a ser reorganizada no plano do concreto, segundo as possibilidades.


O que muda quando algo se termina?


Essa pergunta às vezes só tem resposta no trabalho psicoterapêutico ou com a ajuda da psicanálise porque muitas vezes sentimos um vazio recente, mas não morreu ninguém, nem perdemos o uso do nosso corpo, nem terminou o amor no nosso relacionamento, nem deixamos de ter uma vida sustentável, nem a nossa carreira. De repente, chega uma hora em que paramos de desfrutar da vida; não temos mais ânimos e até passamos mal fisicamente. Talvez até pensemos que algo tem de errado conosco, pois temos tudo para sermos felizes, supostamente, mas não somos. E até mesmo se alguém morreu, pode acontecer que nos sintamos mal porque não nos sentimos mal com a partida da pessoa, precisamente.


Às vezes, existem dores adicionais, do caso por caso, ou dores comuns da vivência de exclusão social ou do campo do crime, que complexificam o trabalho de luto e encerramento de ciclos para re-criar a vida. Quando o que éramos, podíamos ou amávamos foi violentamente tirado de nós, as circunstâncias são difirenciais. Nem todo luto ou perda faz simplesmente parte do envelhecer, da distância ou das mudanças por nós construídas.


Proponho uma análise daquilo que mudou realmente. Uma historização de quem você já foi, e de como você já lidou com a vida: e com qual vida. Talvez a idade adulta tenha chegado e não compreendemos de que se trata. De repente, já não precisamos mais de contornar as mesmas situações ou os mesmos sofrimentos, inclusive, e pode ser que isso nos deixe numa crise. Às vezes, se uma pessoa se foi ou uma situação terminou, algumas vivências ruins também se foram, e é necessário admitir e processar o alívio perante o final do que estava acontecendo. Mas você não precisa ficar a sós com esse sofrimento. 



 
 
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